Aldeia de Chãos: fim-de-semana em comunhão com a natureza

No coração da serra de Candeeiros, em comunhão com a natureza fica a Aldeia de Chãos. Eiras, cisternas e covas do bagaço aguardam pela sua visita.

Na Serra dos Candeeiros fica Aldeia de Chãos, uma pequena povoação da freguesia de Alcobertas . A Cooperativa Terra Chã está a promover a recuperação e revitalização desta região. Dessa forma, desligue-se da tecnologia e aproveite para passar alguns dias em comunhão com a natureza.

A poucos metros do cimo da Serra dos Candeeiros, na vertente a sul, fica Chãos. O nome desta povoação advém dos terrenos circundantes, bons para cultivo, a chamada terra chã. Por aqui, o tempo parece ter parado em alguns detalhes que captam o olhar: propriedades divididas por muros de pedra, algumas cisternas e eiras. Nesta aldeia nasceu, em 2001, a Cooperativa Terra Chã que tem vindo a assumir um papel importante na divulgação e valorização do património ambiental, paisagístico e cultural do local.

As eiras e as cisternas

Enquanto passeia, vai deparar-se com eiras e cisternas. As eiras, com forma circular, estão delimitadas por pequenos muros com apenas uma abertura para a entrada e saída. Estes locais eram para trabalho, mas também para festa. Era aqui que os aldeões se juntavam para descontrair, conversar, cantar ou dançar. Aqui o piso é geralmente coberto por argamassa ou lajes. Outras eiras têm apenas terra batida, sendo que necessitavam de um tratamento adicional antes de serem utilizadas.

Nesta zona da Serra dos Candeeiros não existe água à superfície. Por isso, o engenho dos habitantes levou-os a recorrer às cisternas (reservatórios de água) para ter água todo o ano. Mas, uma terra calcária tornava inútil a abertura de poços, pelo que o meio encontrado para ter água todo o ano foi reter a água da chuva nestas infraestruturas. Algumas das aldeias da região tinham mesmo cisternas comunitárias, como Casais Monizes ou Chãos.

Covas do Bagaço

Quando visitar estas maravilhas da engenharia e arquitectura humana, poderá verificar que para a construção eram muitas vezes aproveitados pequenos algares ou depressões rochosas. Para que a água se mantivesse limpa e não evaporasse, as cisternas eram cobertas. Eram também impermeabilizadas com uma mistura de azeite e cal. E mais. Para aproveitar todas as gotas de água possíveis, a água era encaminhada dos telhados, através de caleiras ou pequenas reentrâncias nas paredes e muros até ao destino final: as cisternas. A Cooperativa Terra Chã tem vindo a promover a recuperação das cisternas e de outras estruturas do património rural da região.

Outro equipamento associado às casas serranas são as Covas do Bagaço. Era aí que se guardava o bagaço da azeitona para ser utilizado, em primeiro lugar na alimentação dos porcos e galinhas, mas também para a lareira e para adubar as terras. A oliveira é uma árvore abundante na Serra dos Candeeiros e na Aldeia de Chãos, onde, ainda hoje, se podem ver várias destas covas.
Mas o que é uma cova do bagaço? É um pequeno reservatório, escavado no solo, com pouca profundidade e um muro em volta. Entre as camadas era espalhado sal e no final era tapada com uma laje para proteção da chuva.

Um programa sem carros

A Cooperativa Terra Chãos e o Centro Cultural de Chãos estão no centro da recuperação deste local. Nesse sentido, já foram criados na aldeia um pólo de recepção, o centro de artes e ofícios, centros de alojamento e também o restaurante regional. Tudo para mostrar a aldeia da serra dos Candeeiros ao mundo. Para começar, tome uma refeição no restaurante da Cooperativa Terra Chã. O local tem uma janela com dezenas de metros de largura que lhe permite desfrutar da paisagem que se estende por quase 200 quilómetros. Daí ode ver parte da serra, o aglomerado de Santarém ali por perto e ainda a planície tão característica da Lezíria. Ao fundo, por vezes imperceptível, a serra de São Mamede. Acautele-se, porque com uma vista como esta, as mesas disponíveis sejam muito requisitadas.

Para comer, o difícil é escolher. A carta é composta por vários pratos típicos das aldeias da serra dos Candeeiros. Pode ser cabrito serrano, galo com nozes, chiba da serra ou ainda os chícharos com bacalhau. E porque fica sem carro? É simples, nesta aldeia, no coração da serra dos Candeeiros, integrado no Parque Natural Serra de Aires e Candeeiros, a estrada termina.

As origens do projeto turístico

É, acima de tudo, interessante constatar a força de vontade da população. Todo este complexo começou a nascer no início da década de 1990, tendo como origem o rancho folclórico da aldeia. A seguir ao alojamento, abriu o restaurante . Curiosamente o restaurante existia já antes de nascer, devido à participação do grupo folclórico, anualmente, na Feira das Tasquinhas de Rio Maior, onde apresentava propostas autóctones de Chãos e do território serrano circundante.

Entre as atividades propostas, ligadas ao território, há iniciativas relacionadas com a tecelagem e a apicultura. Mas também desportos de natureza e atividades de ocupação dos tempos livres para os mais pequenos, no verão.

Rota do Pastor

Já se imaginou a acompanhar um dia trabalho de um rebanho? Com a “Rota do Pastor” esta é a sua oportunidade. Poderá acompanhar o rebanho comunitário da Terra Chã. Ainda no curral, o pastor faz o enquadramento do tema. Em seguida sai-se do curral e sobe-se a vertente leste deixando a aldeia para trás. Após a cumeada, outra vista deslumbrante: quilómetros de costa atlântica, as Berlengas e o azul do mar. É com esta vista que irá tirar partido dos sabores e néctares da terra. Comece por pão de Alcobertas ou por a broa de milho, produzida na única azenha da vila. O queijo de cabra advém do próprio rebanho.

De repente, passaram-se cinco ou seis horas, após cinco a sete quilómetros de contacto com a natureza. Quem marca o passo é o próprio rebanho (cerca de 200 cabeças de raça autóctone: serrana ecótipo ribatejana).

Percursos de bicicleta

Num piscar de olhos, está de volta à aldeia , o percurso é marcado pela conversa e pela observação da envolvente:. No ar voam águias-de-asa-redonda, peneireiros e os coloridos pintassilgos, numa terra que emana o perfume de tomilho, alecrim e carrasco. Noutros tempo, as cabras regressariam então aos respetivos donos, mas, hoje em dia, fica à guarda da cooperativa.

Além deste percurso, saem de Chãos outros quatro, que podem ser opcionalmente realizados de bicicleta. Todos ocupam meio dia e giram em torno de temas relacionados com o território: “À Descoberta das Orquídeas” é particularmente interessante durante a primavera, quando a dezena de espécies residentes se torna finalmente visível. A “Rota da História” tem como destino a vizinha vila de Alcobertas. É aqui que se encontra o seu dólmen e um conjunto de 36 potes de mouros usados para guardar cereais. Assim sendo, irá ver as já referidas cisternas, eiras, covas de bagaço da azeitona, não há nada que escape ao guia de serviço.

Aldeia de Chãos: fim-de-semana em comunhão com a natureza

Gruta de Alcobertas

Mas, para esta última proposta, a sugestão é: não se esqueça da lanterna,, nem do capacete! É uma visita à gruta de Alcobertas, também recuperada pela cooperativa. Esta gruta, com as características estalactites e estalagmites, foi ocupada por humanos há cerca de 15 mil anos. Inclui uma necrópole, com várias salas contíguas, numa extensão de cerca de 200 metros.
Esta visita inclui ainda uma passagem pela antiga pedreira, de onde se retirava pedra de vidro. A infraestrutura está Inativa há 45 anos, e a natureza está a reconquistá-la. Atualmente está submersa por arbustos e árvores de pequeno porte. Sem sinalética não se dava por ela. A recuperação transformo u a pedreira numa parede para escalar com 20 metros de altura. Aqui, as crianças e jovens podem ocupar os seus tempos livres de verão.

Aproveite que está na região para visitar também as salinas de Rio Maior, a apenas cinco quilómetros de aldeia de Chãos e com oitos séculos de história acumulada. Estão abertas todo o ano, a entrada é livre. A melhor altura para observar os salineiros decorre nos meses mais secos. Na aldeia existem vários locais onde pode ser adquirido o sal e produtos afins.
Desta escapadela em comunhão com a natureza sairá sem dúvida com histórias de viagem para contar, talvez amigos novos entre os habitantes de Aldeia de Chãos.