Leiria e o Padre Amaro

11 Novembro | 2015 | Goodyear

Há pouco tempo falamos de Eça de Queiroz e a sua casa de Tormes para convidar o leitor a uma aproximação do universo literário do autor no seu ambiente imediato. Hoje é de Leiria que falamos, daquela mesma Leiria que o autor desenhou com o traço desapiedado com que mostrou a cidade do seu tempo na qual ele brevemente morara. Uma cidade sórdida mas cativante e um livro que causou até mesmo protestos na altura da sua publicação e, em fim, uma obra polémica e intrigante, se calhar o primeiro romance realista escrito na nossa língua. Em 2005 foi feito um filme que muda o enredo de localização até a Lisboa (e ainda mais no México), perdendo, na minha opinião, muito do charme que envolve o livro.

Felizmente, Leiria soube aproveitar o conceito de património material e imaterial e compreender esse facto: não são apenas as coisas que se passaram e os edifícios históricos que construem uma cidade, mas também o seu reflexo na arte do seu tempo. A Leiria que aparece nas páginas do romance é tão real quanto a que podemos pisar, tocar e ver. E uma política turística tem forçosamente de ter em conta isto.

Livro - Quilometrosquecontam

 

A Câmara Municipal assinalou convenientemente, pois, o percurso da chamada Rota d’O Crime do Padre Amaro, um passeio pelos locais em que decorre o enredo para o leitor-visitante se sentir como os personagens da narração.

A primeira paragem da rota é a Praça Rodrigues Lobo, onde pode consolidar forças para a rota num café e admirar o Ateneu para dar o pontapé de saída a este mergulho na década de 1870. Pela direita da Praça caminhe para a rua da Misericórdia. Aqui deixou o Eça umas palavras que ainda ecoam no ar: “E na Misericórdia, ao lado, o piar das corujas no silêncio dava-lhe uma sensação de ruína, de solidão e de fim eterno”. Em breve irá encontrar a Casa da Augusta Caminha (S. Joaneira no romance). Esta foi a primeira morada do Padre Amaro e aqui conheceu a sua namorada Amélia e a mãe dela.

Após deixar para trás a Casa, chegamos à rua Barão de Viamonte (Rua Direita), mergulhando já plenamente no núcleo histórico desta cidade. Encontraremos em torno uma mescla de lojas tradicionais e outras mais modernas, perfeitas todas para escolher uma recordação desta cidade. Se continuarmos pela direita, depressa chegaremos ao largo da Sé. Esta obra do Eça é um profundo ataque à hipocrisia do seu tempo, e por isso reserva um tratamento muito negativo dos clérigos da época. O largo da Sé é um local de importância capital no enredo e aqui decorre muita da ação do romance. É um ponto em que admirar a Sé e a botica do Carlos com os seus tradicionais azulejos. Depois chega a subida à torre sineira, no sopé do Castelo.

No largo Dr Manuel Arriaga estava em tempo de Eça e Amaro o Governo Civil. Acabado o percurso, a Torre Sineira ainda resta do tempo em que os amantes se encontravam. A Casa do Sineiro  ou do Tio Esguelhas, é uma torre de estilo barroco, afastada da Sé e construída por cima de uma das antigas torres medievais das Portas do Sol.

Aqui acaba a rota do Padre Amaro, mas não necessariamente a visita a Leiria. O visitante ainda pode aproximar-se do varandim do largo e deitar uma vista sobre a cidade e o rio Lis, para encaminhar-se depois para a igreja da Misericórdia ou a alameda. Ou pode ir conhecer o Museu da Imagem em Movimento, e ainda o Castelo, que é um autêntico ex-libris desta cidade.

Antes de marchar, se calhar queira desfrutar de uma brisa do Lis, o bolo tradicional, enquanto senta numa esplanada e repassa com olhos curiosos as velhas páginas d’O Crime do Padre Amaro.

Good Year Kilometros que cuentan