Pelos passadiços do “vale da rainha”

Fim de semana em Arouca, visita ao Paiva e à Serra da Freita com a Goodyear

Fomos passar alguns dias a Arouca, comodamente aninhada no fundo de um vale, tendo por muralhas um sólido conjunto de serras que lhe empresta a proteção e cria um micro clima bem específico. O Douro não fica longe, mas é o Rio Paiva e, mais recentemente, os seus Passadiços, que chamam os forasteiros a esta região. Em toda a volta, as serpenteantes estradas da serra são um prazer para a condução, cenários incríveis para a experiência telúrica de passar pelo Portal do Inferno.

 

Passagem do Paiva

Chegados via Castelo de Paiva (vila da qual falaremos muito em breve, a propósito da “vinha do enforcado”), a primeira atenção vai para o casario que, em Arouca, cresce à sombra do velho mosteiro. Aqui e ali, as construções modernas parecem ignorar que estas terras já contam com, pelo menos, um milénio de História registada. Os solos são ricos e ainda há uma actividade agrícola forte mas tradicional, bem visível na feira anual por altura das colheitas.

Os Passadiços do Paiva fazem parte do Geopark Arouca e, poucos meses após a sua inauguração, foram engolidos pelas chamas de mais um dos fatídicos incêndios florestais que alastram em Portugal por altura do Verão. Mas a obra já contava com o interesse da opinião pública, o poder local estava consciente da sua importância e, depois de alguns meses de trabalho, voltaram a abrir ao público para receber, logo nos primeiros dias, milhares de visitantes.

Em 2016, a forma de acesso aos passadiços foi revista: foram colocados três pontos de controlo (cascata das Aguieras, praia do Vau e Espiunca) e, devido à afluência completamente inesperada que se registou no ano passado, a entrada obriga agora a registo prévio no site e ao pagamento de 1€. Apesar destes passos extra, o esforço continua a valer bem a pena e estamos convencidos que, dentro de poucos anos, um passeio por aqui será um clássico tão “domingueiro” e português como uma subida à Torre ou uma ida ao Cabo da Roca.

Paiva Arouca - Quilometrosquecontam

O percurso pedestre dos passadiços tem um comprimento de cerca de oito quilómetros e está programado para ser feito em 2h30, ao longo da margem esquerda do Paiva. Até o onde a vista alcança encontramos paisagens de grande beleza que abrigam, não só flora e fauna selvagens, mas também espaços geológicos singulares. Entre as praias fluviais do Areinho e da  Espiunca, a cada curva das passagens, encontramos uma sucessão de recantos que nos apaixonam e obrigam a mais um “clique” na máquina fotográfica. Assim, passamos pela Cascata das Aguieras e pela Gola do Salto, pela Falha de Espiunca, praias como o Vau e pontes suspensas sobre o vazio.

 

O inferno, afinal, é lá em cima…

Depois de um dia desgastante q.b. com passeios a pé, o nosso plano para o dia seguinte tinha que incluir uma atenção muito especial às estradas serranas que nos rodeavam. Na agenda estava uma visita que há muito tínhamos programada, nem que fosse só pela curiosidade do nome: a Estrada do Portal do Inferno. Este percurso vai pelo lombo da serra, na fronteira entre os distritos de Viseu e Aveiro, e se, na nossa opinião, tem mais de “paradisíaco” do que “infernal”, é uma verdadeira aventura por terras que o Homem parece ter esquecido.

Ao longo de dez quilómetros e a mil metros de altitude, a estrada leva-nos por três serras, São Macário, Arada e Freita, que formam o maciço da Gralheira. Aquilino Ribeiro chamou a esta paisagem “Terras do Demo” mas, se é isto que Lúcifer esconde cá por cima, nem conseguimos imaginar como será o Céu.

 

 

Saindo de Arouca com rumo à Serra da Freita e, para lá, ao Covelo de Paivó, começamos a penetrar em terras de xisto e lousa, onde aldeias morrem abandonadas e esquecidas. Estamos cada vez mais alto e o cenário começa a mexer com quem tenha uma pontinha de acrofobia: imponente, bruto e, lá muito em baixo, vazio. Paramos para esticar as pernas perto do Covelo e temos o primeiro indício que afinal o Demo anda por aqui. O povo chama-lhe “garra” e não se confunde com mais nada na paisagem: o conjunto de linhas de água que aqui cai foi, pacientemente, esculpindo a serra para nos dar a ilusão de dedos.

Aqui perto fica o aguardado “Portal”: local de passagem íngreme, no qual só cabe um carro de cada vez e que, desde sempre, amedronta quem aqui passa. Estamos a 900 metros de altitude e à nossa volta só temos, não nos cansamos de repetir, o vazio. Paramos o carro para apreciar melhor a situação: se continuarmos o nosso percurso até São Macário teremos um declive vertiginoso com vista para Viseu, se voltarmos para trás nunca conquistaremos o nosso pavor de alturas. Prosseguimos… mas fique o leitor a saber que chegámos à conclusão que aquela ideia de nos defrontarmos com os nossos maiores medos, se calhar até funciona… só que não é para nós.