Guia para viver e sobreviver ao Santo António de Lisboa

Uma visita a Lisboa no Santo António permite aproveitar a cidade na melhor altura do ano. É a sua primeira vez? Nós contamos tudo o que precisa saber.

Se fosse só pelo entusiasmo dos alfacinhas, nunca ninguém diria que o Santo António não é afinal o padroeiro de Lisboa*. Ainda 13 de junho está a um par de semanas de distância e a cidade já se enche de balões, grinaldas e cheiro a sardinha assada. Mas é na noite de 12 para 13 que tudo culmina, em vésperas de feriado municipal, e a capital inteira sai para a rua com um copo de vinho tinto na mão. Como bons anfitriões, os lisboetas recebem bem todos os forasteiros que decidam juntar-se à festa mas, para ajudar a quebrar o gelo, nós deixamos aqui 7 dicas para sobreviver a uma escapadela na cidade durante o Santo António.

O forasteiro que chegue a Lisboa durante o mês de junho encontra uma cidade (ainda mais) especial. A ideia de que é a melhor altura do ano para visitar a cidade já vem de longe e é nesta altura que o tempo está “naquele” ponto em que ainda não chegou a insuportável canícula, mas já convida a passar toda a noite apenas com uma t-shirt no corpo. Começam as Festas da Cidade, a forma predileta de cozinhar passa a ser a grelha plantada mesmo à frente da porta de casa e os bairros mais tradicionais enchem-se do som da música mais popular e “malandreca”.

7 dicas para sobreviver a uma escapadela na cidade durante o Santo António

1. Alfama não é o centro do mundo…

…mas parece! De todos os bairros tradicionais, Alfama é o mais concorrido durante estes dias e, conforme a postura do folião, pode ser o melhor ou o pior sítio a visitar. A favor tem a experiência de muitos anos, milhares de recantos onde os vizinhos montam grelhas e mesas para nos servir, ruas apertadas que obrigam a muito calor humano e a certeza que a animação aqui nunca para. Por outro lado, torna-se caótico e intransitável, com pisadelas, carteiristas e preços inflacionados à medida que avança a noite. Mesmo que se opte por outro destino, Alfama não deixa de ser passagem obrigatória e está bem situada para se seguir depois para a Costa do Castelo, Mouraria ou Graça. Do outro lado da cidade, para lá do eixo da Avenida da Liberdade agora ocupada pelas marchas, a diversão continua na Bica, um pouco pelo Bairro Alto, e segue depois para a Madragoa.

Guia para viver e sobreviver ao Santo António de Lisboa

2. Escolha a sua marcha

Durante os últimos meses, centenas de marchantes passaram horas a fio a preparar guarda-roupa e a ensaiar coreografias para a grande noite do Desfile das Marchas na Avenida da Liberdade. Cada “marcha” representa um bairro e a tensão dura até bastante tarde, enquanto o júri decide o vencedor, sendo a ponta visível de rivalidades que já duram há várias gerações. Sem o espetáculo luxuoso das escolas de samba à brasileira, é um momento que merece ser visto ao vivo pelo menos uma vez na vida. Só os lisboetas, habitantes dos bairros envolvidos, levam a competição realmente a sério, mas se o forasteiro quiser torcer por alguma das marchas basta escolher um critério que justifique uma decisão com o coração. Comeu uma boa sardinha na Bica? Gosta da vista em Marvila? Já se divertiu na Madragoa? Se não quiser comprometer-se, basta gritar com uma voz estridente “a minha marcha é liiiiiiiinda!” e ficará logo integrado.

3. Não marque horas com ninguém e deixe o carro longe

Durante o fim de semana, a cidade mantém-se transitável e quem vier de fora poderá facilmente deslocar-se como de costume. Mas tudo muda durante a tarde de dia 12, à mesma hora que o carvão começar a aterrar nos grelhadores. Os parques de estacionamento da zona baixa da cidade, desde Alcântara até Marvila, ficam a rebentar pelas costuras, o ritmo dos táxis começa a abrandar até ser quase impossível apanhar um durante a noite e a derradeira salvação é mesmo andar a pé. Durante as primeiras horas da noite, a solução é principalmente o Metro, com as saídas de Baixa-Chiado (Bica e Bairro Alto), Santa Apolónia (Alfama), Martim Moniz (Mouraria, Castelo e Alfama) e Intendente (Mouraria) a ficarem convenientemente próximas dos nossos destinos. Se não está disposto a passar a noite a andar de um lado para o outro a pé, escolha um canto, uma mesa ou um degrau, e agarre-se bem ao seu lugar porque esta noite não é para conduzir.

4. “Onde é que se come bem neste fim de semana?”

Em lado nenhum! O ritmo frenético e o espírito descontraído dos santos faz com que haja sempre muita comida e bebida envolvida, mas a qualidade é sempre um critério secundário. As grelhas de bifanas e sardinhas na berma da estrada não são o melhor ambiente para criar mais do que verdadeira “street food”, por isso prepare-se para engolir e não fazer muitas perguntas. O menu não é extenso e conta-se com os dedos de uma mão. Sardinha com sal na grelha, envolvida numa carcaça, e acompanhado com uma salada de pimentos. Em opção, a bifana de porco é feita na grelha ao lado e veste-se também com pão. A meio da noite, a missão que oferece mais pontos é encontrar um caldo verde com chouriço e a carta fica-se por aqui. Não é um menu pobre, é só minimalista!

5. Perca os preconceitos musicais

Depois do grande sucesso de Emanuel, começámos a chamar a este estilo de música de “Pimba” e há algures uma lei escrita que diz que é o único género que pode ser ouvido na noite de Santo António. Se tiver uma rima malandra, o som de um acordeão e possa ser tocada por um artista apenas com o seu clássico órgão, tem passagem marcada pelos altifalantes dos santos. Surgem ocasionalmente as recordações de sucessos mais antigos como o “Cheira Bem, Cheira a Lisboa”, mas as festas populares não são momento para grandes inovações musicais. Quem procurar uma opção um pouco diferente, pode ir até ao Intendente onde, depois de alguns anos no Miradouro de Santa Catarina, o Arraial da Red Bull tem por hábito apresentar dj´s e concertos fora do registo comum a esta noite e na Bica ainda aparecem as ocasionais barraquinhas com música house ou reggae. Quando estiver farto, há sempre a hipótese de visitar uma das discotecas do Cais do Sodré ou Santos, locais onde a música pimba fica barrada à porta.

6. Leve paciência e bom humor suficientes para dar e vender

Neste tempo de telemóveis e dispositivos smart parece quase impossível, mas a noite do Santo António é aquela em que há sempre alguém que se perde, que não sabe o caminho ou que só aparece no local combinado duas horas depois. Não é maldade dos seus amigos, é mesmo porque é uma noite em que tudo falha. Assim, prepare-se para chegar cedo ao bairro que escolheu para jantar, de forma a conseguir arranjar mesa sem ter que esperar horas a fio. Não conte também demorar o tempo normal a fazer um percurso. Multiplique os dez minutos que demoraria a subir da Madalena ao Largo das Portas do Sol por 10, calce os sapatos mais confortáveis que tiver (sandálias estão proibidas) e leve consigo o dinheiro que vai precisar. Não vai encontrar ATM´s com dinheiro a partir das 10h da noite! O melhor que pode levar consigo é mesmo muita paciência e um espírito relaxado!

7. Não se esqueça do santo!

Com vinho tinto de proveniência incerta a ser abundantemente servido em jarros de barro vermelho, o mais provável é que qualquer um se esqueça do motivo da celebração. Mas os verdadeiros alfacinhas levam o culto de Santo António com muito respeito. Já não há crianças pelas ruas da cidade a pedir “uma esmolinha para o Santo António”, mas durante a tarde de dia 12 ainda são celebrados os famosos Casamentos de Santo António e a procissão sai à rua no dia 13. A tradição obriga também a comprar manjericos com quadras populares dedicadas ao Santo e à temática dos namoricos e casamentos, e as raparigas em idade de casar queimam alcachofras e esperam que voltem a florescer no dia seguinte, sinal que o matrimónio está para breve.

*O verdadeiro santo padroeiro de Lisboa é São Vicente.