Vale Abraão, o tesouro do Douro

19 Maio | 2016 | Goodyear

O cinema de Manoel de Oliveira tem adeptos e detractores, apaixonados e inimigos jurados. Como costuma acontecer com as figuras tão pessoais e inovadoras, arriscadas mesmo. Não fez filmes para qualquer um, como Saramago não fez livros para qualquer um e como não todos os ouvidos conseguem compreender a genialidade de Beethoven. Aquela narrativa pausada e a fotografia abafadora são marcas de identidade de um modo de pensar e viver o cinema que talvez tenha desaparecido para sempre.

Vale Abraão é um exponente desse “método de Oliveira”. Um filme de quase quatro horas que passeia a câmara pelas paisagens arrebatadoras do Vale do Douro para contar uma história (e não “mais uma história”) à volta do amor, a fidelidade, a beleza, o desejo… Um conto trágico e comovedor que parece ir desfiando-se a partir dos olhos magnéticos de Leonor Silveira.

É claro que há filmes cuja posta em cena é devedora de uma paisagem formosa que ajuda, e muito, a criar aquela atmosfera que define o conjunto do filme e o distingue de qualquer outro. Sem o Douro ao fundo, Vale Abraão careceria de uma parte muito importante da sua força expressiva. E Manoel de Oliveira sabia-o: a câmara parece ficar presa em qualquer recanto, como se uma mão misteriosa nos ligasse para sempre à paisagem que o ecrã desvenda.

 Peso da Régua foi um dos locais escolhidos pelo director para trazer para o mundo real a história que ele imaginara (pois, como não foi infrequente, em Vale Abraão também o roteiro tinha saído da mão de Manoel de Oliveira). Perto da cidade estão localizadas algumas das quintas que acolheram a filmagem de 1993.

Videiras no Vale do Douro

Se começarmos viagem pela estrada da Régua, menos de dois quilómetros depois de termos atravessado as pontes, chegaremos à Quinta da Pacheca, uma propriedade da família Serpa Pimentel, donos também da Quinta do Vale de Abraão, o local de filmagem da maioria das cenas do filme. Na Quinta da Pacheca pode conhecer o seu lagar, testemunha do tempo da expansão vinícola, num ambiente bucólico que rememora o passado histórico e recente da região. Na casa adivinhamos o rasto inapagável da história, como se nos saudasse detida muito atrás no tempo. Não hesite em conhecer e desfrutar do processo de produção dos vinhos, estágio a estágio. As visitas são diárias e também não param aos fins de semana.

A velha Quinta do Vale de Abraão tornou-se hoje um hotel Six Senses, o primeiro resort no nosso país e da Europa da marca. O Aquapura foi o hotel anteriormente situado, desde 2007, nos terrenos da Quinta. Hoje é um estabelecimento luminoso e fresco, onde aproximar-se da realidade do Douro do ponto de vista gastronómico e paisagístico. Mas, é claro, já não sentimos lá o ecoar dos passos de Manoel de Oliveira, na velha propriedade agrícola. Não receie visitá-la, porém, para se deixar deslumbrar por uma paisagem incrível à volta quase inalterada desde os dias onde a câmara filmava.

Perto, já em Lamego, distrito de Viseu, encontramos a Quinta de Monsul, que oferece uma recepção intimista e atenciosa com o pano de fundo do Douro, selvagem e domesticado pela mão de gerações incontáveis. A possibilidade de experimentarmos o sabor característico do bom vinho local em provas vínicas com assessoramento enólogo é motivo suficiente para sulcar os 15 quilómetros que nos afastam de Peso da Régua. Quando cai a tarde e o Sol vai ficando oculto naquele horizonte por onde o rio verte para o mar longínquo compreendemos parte da magia que talvez deixasse aqui semeada Manoel de Oliveira, ou talvez apanhou para a capturar por sempre dentro do seu filme.

Good Year Kilometros que cuentan