Contrabandistas no Gerês transmontano

A encosta oriental do Gerês é menos conhecida e povoada mas continua a merecer a sua atenção. Venha com a Goodyear fazer a estrada Covelães-galiza.

Fomos contrabandistas durante um dia no Gerês transmontano: escolhemos o lado mais recôndito e menos visitado da Serra, atravessámos encostas que só os locais conhecem e, na companhia do silêncio e das aves lá no alto, demos o salto até Espanha. A face oriental do parque é a mais despida e menos conhecida mas tem muitos Quilómetros que Contar. Venha com a Goodyear explorar um lado do Gerês que poucos portugueses visitam.

A M513 é uma pequena estrada municipal que vai desde Covelães, no concelho de Montalegre, até à fronteira galega, perto de Calvos de Randin, a cerca de 18 quilómetros. É uma das muitas estradas da raia que o tempo tem votado ao esquecimento e à inutilidade: com melhor asfalto e percurso de condução, saídas como a de Chaves por exemplo, em auto-estrada, tornaram-se muito mais utilizadas e práticas para todos. Mas vocês sabem que o asfalto é, para nós, uma forma de descobrir um mundo diferente: já conhecemos bem a vertente ocidental e sul do parque e até já visitámos os castros que se escondem a norte da Serra, só nos faltava o Gerês transmontano.

    A oriente do Gerês

    Saímos de Covelães no cruzamento com destino a Espanha pela M513 e a primeira metade do trajecto será a subir. Começamos por percorrer os campos de cultivo que apoiam a aldeia enquanto o monte começa a crescer do nosso lado esquerdo, à medida que nos aproximamos dos 1200 metros altitude.

    A estrada que estamos a percorrer atravessa o Planalto da Mourela. Aqui, os pequenos núcleos de pinheiro-silvestre autóctone presentes na encosta retrocedem, mas a vida selvagem não se torna mais pobre. Olhamos para o céu do final da tarde e vemos dezenas de aves no seus rituais, aproveitando a cada vez menor presença do Homem.

    Gerês

    Para despistar a guarda…

    Vamos fazer uma pequena batota e seguimos pela variante da M513 para aproveitar o desvio para uma visita a Pitões das Júnias, o berço de D. Pedro Pitões, importante instigador da conquista de Lisboa de 1147. Conforme a altura em que aqui estivermos, o cenário desta estrada irá mudar: é uma sucessão de pequenos campos de cultivo, divididos com os habituais muros de pedra, que criam um mosaico sempre em mutação, com o ciclo das estações a comandar o pincel. Lá ao fundo, a oeste, o sol deita-se sobre os pontos mais altos da Serra, frequentemente enfeitada ainda com a neve.

    Apesar da mistura com elementos mais modernos, alguns até de gosto duvidoso, que insiste em surgir aqui e ali, Pitões das Júnias mantém muito do seu charme bruto, sóbrio como a pedra que lhe dá forma e o seu passado medieval. Não tem que se afastar muito da rota e vale a pena um jantar na “Casa Do preto” da D. Maria.

    Gerês

    Do alto da Mourela

    Seguindo caminho para norte, desaparecem as árvores por completo e o campo abre-se para receber os rebanhos de vaca Barrosã que tanta fama dão à carne da região. O fio telefónico que acompanha a estrada desde o princípio da nossa viagem é a única coisa que se eleva acima da urze e é o local de descanso de picanços, gralhas, pintarroxos, e uma série de outras espécies menos comuns como a laverca ou a petinha-das-árvores.

    Depois de cerca de cinco quilómetros sempre em linha recta, damos sinais de sair do planalto e a estrada começa a descer até Tourém. Ao longe, depois de algumas curvas da estrada, conseguimos ver já a presença do lençol de água da barragem de Salas e também a sua influência na paisagem: as árvores começam a reaparecer, os campos de cultivo a ganhar novo fulgor e o solo já se presta a ser novamente arado.

    Estação terminal

    Tourém é a última povoação do lado português e, como acontece em outras aldeias da raia, foi local de hábitos comunitários dos quais ainda subsistem alguns sinais. O forno do povo ainda está em funcionamento e a povoação define turnos para que todas as famílias o possam usar. A arquitetura regional, com os seus patamares e varandas, com a loja por debaixo da casa, também não enganam: isto é Trás-os-Montes.

    Ao conduzirmos nesta “língua” de território que entra pela Galiza adentro, dependendo da configuração do terreno e dos montes que nos tapam o caminho, olhamos para a esquerda ou para a direita e temos Espanha. Guntumil e Randin ficam a 3 quilómetros, menos de um quarto da distância que já fizemos hoje de carro entre Pitões das Junias e Tourém. Prosseguimos para norte, atravessamos a ponte sobre a barragem e aproveitamos para uma pequena pausa na margem. Estamos no fim de uma tarde de verão, o calor ainda aperta, mas a vida à volta da barragem está bem animada: conseguimos ver mergulhões e patos, os únicos responsáveis por interromper o silêncio que aqui se sente.

    Dois quilómetros depois chegamos ao fim do caminho. À nossa frente, uma pequena rotunda tem por companhia um edifício abandonado que, noutros tempos, servia de controlo fronteiriço e dava as boas-vindas à Galiza. A estrada municipal em que circulámos nestas duas dezenas de quilómetros dá lugar a um asfalto moderno e bem conservado mas esse já não nos interessa. Damos a volta e voltamos pelo mesmo caminho que viemos: temos que voltar a casa antes que a Guarda nos apanhe…