Santarém pelos olhos de um romântico

Passeio pelos locais visitados por Almeida Garrett em “Viagens da Minha Terra”

Com ponto de partida em Viagens da Minha Terra”, imagine-se na companhia de Almeida Garrett e venha connosco em visita ao longínquo ano de 1843, para conhecer uma cidade e um país em processo de profunda mudança. Tal como então, Santarém é ainda um caldo de diferentes sinais de Portugal, das memórias de um país antigo e ponto de fronteira entre a influência da grande metrópole e os ritmos da província. Sempre de braços abertos para uma visita, venha conhecer Santarém pelos olhos do autor romântico.

 

Viagens na terra de Garrett

Terror para muitos alunos que têm que o enfrentar no Liceu, “Viagens da Minha Terra” tem que ser relido mais tarde para ser plenamente entendido. A pressão de uma nota final ou as dificuldades que muitos demonstram hoje em dia com a disciplina de português, não são as melhores circunstâncias para apreciar a delicadeza da escrita e intenções do autor.

Quando Garrett nos levou numa viagem que passava também por Coimbra e Porto, alongou-se por altura de Santarém e prestou atenção especial à caracterização da Azambuja ou do Cartaxo. Com as suas pinceladas de mestre, o autor falava-nos de um país que já não vivia no esplendor do “império” e que entrava então em decadência económica e cultural. Entre citações de Napoleão e uma narrativa que tem o seu verdadeiro inicio com a paisagem de uma janela, é Santarém o destino de Carlos e é aqui que se materializa a metáfora de um país.

 

“Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá indício de estarmos nas férteis margens do Nilo português.”

 

Ainda hoje a Azambuja é pequena e acolhedora, marcada pelos ritmos do rio Tejo e da agricultura. Com orgulho na sua tradição tauromática e qualidade da gastronomia, é localidade que merece umas horas de passeio só para respirar o seu ambiente. Em redor, e se a meteorologia o permitir, faça alguns quilómetros ao longo da estrada das lezírias, na direção do Tejo. Em alturas de grandes chuvas esta é a zona que ouvimos sempre ser recordada nos telejornais pois, tal como o Nilo de Garrett, é aqui que as águas não pedem permissão para passar e, regularmente, inundam os campos de cultivo para os enriquecer.

 

 “O café é uma das feições mais características de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião.”

 

No Cartaxo já não há café onde nos sentemos “nas duras e ásperas tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas”, mas o autor não deixa de ter razão. Sente-se aqui num dos cafés perto da Igreja Matriz e faça o papel de escritor atento: de olhos e ouvidos bem abertos, atreva-se a desenhar o seu próprio retrato dos ribatejanos. Para completar a tela, visite também o Museu Rural e do Vinho ou participe na anual Festa do Vinho, em Abril, para melhor apreciar o eterno ex-libris da povoação: o seu excelente, mas popular, vinho.

 

“A menina dos rouxinóis! Que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?”

 

De passagem pelo Vale de Santarém, conhecida no séc XIV como do Soeiro, poderíamos tentar descobrir a casa de Joaninha por entre as belezas naturais da zona. Continua a ser um lugar privilegiado pela natureza, mas é também local de forte trabalho agrícola. Ao longo de todo o vale, no sentido norte-sul, estende-se uma longa língua de terra arada de onde Lisboa se alimenta. Na freguesia foi erguida uma fonte e um painél de azulejos que recordam a obra e a personagem de Garrett, a “Fonte da Joaninha”, onde vemos ilustrada a menina dos rouxinóis e uma passagem do livro.

 

“Santarém é  um livro de pedra em que a mais interessante das nossas crónicas está escrita”

 

Almeida Garrett - Quilometrosquecontam

Chegados ao nosso destino, pelo centro histórico encontramos espalhados muitos dos símbolos da portugalidade e, ainda bem preservados, os mesmos sinais que o autor conheceu no séc. XIX. Aqui fica a Casa da Alcaçova, onde residia Passos Manuel, e que aloja hoje a Fundação Passos Canavarro.

Antiga residência dos reis portugueses, guarda bem a sua imponência histórica nos dezasseis conventos e mosteiros, cerca de trinta albergarias e hospitais, mais de quarenta ermidas, paços como os de Alcáçova e do Terreiro da Piedade e variadíssimos palácios e solares da nobreza. Um passeio sem destino pelas ruas do centro histórico permite-nos apreciar esse ambiente e descobrir os inúmeros sinais do Maneirismo e Renascimento que aqui se escondem à vista de todos.

Demore-se por aqui algumas horas e aprecie aquela que é a “Capital do Gótico Português”, com uma visita ao Jardim das Portas do Sol, ou a uma das igrejas aqui construídas entre o séc XIII e XV, Marvila, Santa Clara ou o Convento de São Francisco.

As semelhanças entre o Portugal retratado por Garrett em meados do séc. XIX e aquele que hoje conhecemos são inescapáveis: é num permanente dualismo entre um país antigo, o de Frei D. Dinis, e o apelo da modernidade, o liberalismo de Carlos, que ainda vivemos. E a poucos quilómetros de Lisboa, o Vale e Santarém continuam a ser magníficos retratos disso mesmo, sempre a convidar-nos para apreciar a beleza do rio e da lezíria, com a presença do Homem bem marcada.