Tradições do dia de Reis: “janeiras” ou “reisadas”?

5 Janeiro | 2016 | Goodyear

Para (re)descobrir o Dia de Reis já precisamos de remexer nos baús da memória: se, nos dias de hoje, o Natal português termina a 25 de Dezembro, a celebração tradicional ía até dia 6 de Janeiro acompanhada pelo cantar das janeiras da primeira semana do ano. Como qualquer boa tradição portuguesa, é ao redor da mesa que tudo se centra e que todos se reúnem. Os estômagos eram aquecidos ao sabor dos enchidos e da jeropiga, uso que ainda se respeita em muitas zonas de Portugal. Se os grandes centros urbanos já se esqueceram, o interior do país ainda guarda a memória acesa e mantém vivas as tradições do Dia de Reis.

 

Vamos Cantar as Janeiras…

 Ainda agora aqui cheguei

Já pus o pé na escada

Logo o meu coração disse

Aqui mora gente honrada.

 

O Dia de Reis é um belíssimo exemplo da confiança que temos na capacidade do povo para transformar uma celebração religiosa num momento de convívio gastronómico e diversão. E era isso que se passava um pouco por todo o Portugal com o início do novo ano: grupos de rapazes e raparigas iam pelas aldeias em visita a casas de amigos e gente abastada. Entre cantares de louvor a Jesus recém-nascido, iam introduzindo algumas quadras de louvor ao seu anfitrião. Em troca, o dono da casa lá oferecia uma morcela ou um copo de vinho aquecido para afinar as gargantas dos convivas.

 

 

Finda a ceia, era altura de passar à próxima casa e repetir o processo até que o avançar das horas e o efeito etílico se encarregavam de desfazer o grupo. Na zona de Castelo Branco, da Sertã a Penamacor, passando pelo Fundão, a tradição era mais recatada e, ao invés de se esgotar numa única noite, as ofertas eram reunidas e marcada uma festa para outro dia. Mas a desertificação das Beiras encarregou-se de tornar este hábito cada vez menos rotineiro e espontâneo e começa-se a temer pela sua extinção. Valem ainda algumas iniciativas de ranchos folclóricos e municípios que procuram animar o glacial inverno beirão.

 

Fumeiros bem recheados

Para dizer a verdade, esta é mesmo a melhor altura para tal aventura nos rigores das serranias do interior norte: é agora que os fumeiros estão repletos de enchidos frescos e a jeropiga está pronta para fazer as vezes de poção mágica. Tradicional em todas as zonas de produção vinícola, a Jeropiga é o resultado da muita experiência que o povo tem em aproveitar tudo. Depois da colheita e da pisa, o mosto é guardado e é-lhe adicionado aguardente e açúcar, resultando num néctar doce e alcoólico o suficiente (17°) para enganar incautos.

Já que falamos de bebidas para “animar o espírito”, aproveitemos para visitar os Açores, onde o “Menino Mija” ajuda a empurrar o Bolo-Rei. Transformada depois em marca de licor, esta era a expressão usada pelas visitas ao bater à porta. Entre 24 de Dezembro e 6 de Janeiro era hábito prolongar a Consoada com a presença de outros amigos e conhecidos que não tinham participado na Ceia de Natal, uma celebração mais íntima e familiar. Para além de serem recebidos com licores tradicionais, bolo-rei e figos, são oferecidas laranjas às visitas, numa referência à cultura deste citrino nas ilhas. Se estiver por São Miguel esta noite, dê um salto à Igreja Matriz de São Jorge, onde poderá acompanhar o grupo da freguesia no seu habitual passeio.

Fumeiro - Quilometrosquecontam

Castanhas e figos

Em Castro Verde, Alentejo, envolvidos pelos seus capotes os homens ainda se juntam em volta das brasas que ardem e dão conforto à noite. A igreja continua a encher-se de fiéis nesta noite para se ouvir o cante alentejano, hábito que substitui os tempos em que tal acontecia de forma espontânea. Em Beja queima-se um madeiro e canta-se à volta das chamas, depois da carne de porco com castanhas do jantar e do chourição e do paio com pão alentejano da ceia.

Mais a sul, no Algarve, com a sua “coroa” no topo, a romã também aparece associada ao 6 de janeiro e é, inclusivé, tema para mezinhas e superstições populares, usada para atrair o dinheiro e a felicidade no novo ano. No Barrocal deitavam-se “três bagos de romã ao fogo para que este se mantivesse aceso durante o ano; três bagos de romã na bolsa do dinheiro para que ele nunca faltasse; três bagos de romã dentro da bolsa do pão ou no saco da farinha, para que nunca faltasse o pão ao longo do ano.”

Se é um dos muitos portugueses que nos últimos anos deixou de comemorar a data, aproveite este ano para recuperar o Dia de Reis. Para além do simbolismo religioso, há um conjunto de curiosas tradições que nos levam de regresso ao tempo dos nossos antepassados, à província e aos bons momentos de convívio que uma mesa farta oferece.

Good Year Kilometros que cuentan