Fernando Pessoa pelas ruas da Baixa de Lisboa

Foi na baixa que Fernando Pessoa viveu grande parte da sua vida e encontrou o cenário para o Livro do Desassossego. Fomos descobrir como é no séc XXI.

Seja em viva presença ou pelos percursos literários que realizava com os seus heterónimos, Fernando Pessoa passou muito tempo pela Baixa de Lisboa. Aqui trabalhou, viveu, escreveu e deixou que a imaginação o levasse por estas ruas, tornando complicado saber ao certo onde realmente morou ou onde diz-se que poderá ter estado. Mais concorridas agora, as mesmas ruas ainda lá estão, num local onde a cidade continua tão cosmopolita como antes e vê nascer novos negócios e pontos de atração. A Goodyear desceu à baixa, fez um percurso pelos mesmos sítios onde andou o poeta e acabou a almoçar no Git, um lounge bar inaugurado recentemente num dos edifícios onde trabalhou Fernando Pessoa.

O escritor nasceu no Largo de São Carlos, no nº4, 4º Esqº mas saiu muito cedo de Lisboa, indo para África do Sul e não voltando a morar na baixa. Contudo, e como era comum para a Lisboa da época e para um homem como Fernando pessoa, a sua vida profissional foi passada em grande parte na zona e, para além das várias empresas para as quais trabalhou, era um assíduo frequentador dos seus cafés e restaurantes

“Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores” – Fernando Pessoa – Livro do Desassossego.

Pessoa não foi, obviamente, a primeira grande figura da literatura a andar pela Baixa, seguindo os passos de nomes como Antero de Quental ou Aquilino Ribeiro, mas “O Livro do Desassossego”, uma das obras magnas da cultura portuguesa, marcará para sempre aquele quarto andar da Rua dos Douradores no nosso imaginário. Escrito pelo heterónimo Bernardo Soares, resulta de uma série de fontes dispersas reunidas já depois da morte do autor e é uma das suas peças mais íntimas. Tal como Bernardo, ajudante de guarda-livros de um escritório lisboeta, Pessoa trabalhou aqui quase a vida toda: na Rua da Prata, Rua de São Julião, Rua da Betesga, Rua Augusta ou Rua dos Fanqueiros, onde deverá ter começado a escrever o Livro do Desassossego.

Esquina da Rua da Assunção

A Baixa de Fernando Pessoa é a mesma de todos os lisboetas

Muito adequadamente a todo este cenário, Pessoa conta que conheceu Bernardo numa pequena casa de pasto que ambos frequentavam e que foi aí que lhe passou as primeiras folhas da obra. Que casa poderia ser essa só podemos imaginar, até porque a maioria das que o poeta frequentou já fecharam. Seria no Irmãos Unidos do Rossio? Fechada em 1970, foi ocupada depois pela já histórica Camisaria Moderna. Ou talvez no Café Martinho, no Largo D. João da Câmara, onde se reunia com os membros do Orpheu. Também já não existe, substituído por um banco em 1969… Conta-se que também frequentava o Leão Pobre na rua 1º de Dezembro ou o mais intelectual Martinho da Arcada, mas na criação resultante da pena de Pessoa, todos estes locais e sinais se misturam para criar um cenário que, apesar de imaginado, continua a ser uma fiel representação de uma realidade.

Na rua da Assunção vamos encontrar uma via fulcral para perceber o poeta e a Baixa. Cruzando as vias principais da Rua do Ouro ou da Rua da Prata, hoje em dia está vedada ao trânsito e foi ocupada por esplanadas e lisboetas e turistas em ritmo de passeio. Contudo foi aqui que se deu um dos momentos fundamentais da vida de Pessoa: foi quando trabalhava na sede da firma Félix, Valladas & Freitas, Ld.ª que conheceu Ophélia Queiroz, a única paixão que lhe conhecemos e que deu origem a uma série de cartas de amor, uma relação discretamente escondida e a um final em que o poeta evidenciava um situação psicológica instável.

Um Gin com Pessoa e Ophélia

Depois deste percurso pela Baixa de Pessoa, vamos ficar no local onde se deu o encontro com Ophélia, no mesmo edifício, mas entrando pela rua dos Correeiros. Nasceu aqui um novo espaço lounge que vai beber a esta paisagem pessoana para criar um local muito agradável para um reencontro com as palavras do poeta. O ambiente do Git não é com certeza aquilo que era possível conhecer na Lisboa dos anos 10 e 20 do século passado, mas tudo muda e só podemos agradecer a sorte do espaço existir quando muitos outros desaparecem ou tornam-se inacessíveis.

Apesar de estar no centro mais turístico da capital, consegue manter-se relativamente discreto e acolhedor, com diversas citações da obra do autor pintadas pela parede. A referência a Fernando Pessoa fica-se por aí e este não é um espaço museológico ou de tributo. Contudo, beber um gin, escolhido de uma excelente carta, acompanhado por tapas de queijos e enchidos, na companhia de quem nos dá troco numa boa conversa, é a versão moderna da Lisboa intelectual de há 100 anos. Temos a certeza que Pessoa iria aprovar.