De Sines a Porto Covo, praias lendárias e vilas brancas

Começamos a nossa viagem em Santo André e terminamos na Ilha do Pessegueiro, pelo caminho descobrimos o mar, a lota de Sines e o branco de Porto Covo.

A rota pela linha de costa que vai desde a Lagoa de Santo André até à Ilha do Pessegueiro, passando por Sines e Porto Covo, é um percurso de contrastes, um eixo onde o Alentejo e o mar se cruzam e produzem um casamento inesquecível. De um lado, o azul do mar a atacar a extensa linha de areia, do outro os montados que continuam na direção do interior, em ambos o casario caiado a branco e engalanado a azul. É uma rota apaixonante em qualquer altura do ano, mas que nos enamora ainda mais à medida que o verão se aproxima. Venha daí conhecer as magníficas praias alentejanas e apreciar os frutos que este mar entrega todos os dias na lota de Sines.

    Lagoa de Santo André

    Com a Comporta a norte e a cerca de 30 minutos de Sines, a Lagoa de Santo André é um pequeno oásis de vida, rica não só em pesca mas também patos, maçaricos, gaivotas, garças, alcatrazes e mergulhões. É aberta todos os anos por altura da primavera para renovar as águas daquela que é a maior lagoa da costa alentejana, enquanto a sua linha de areia, no lado do mar, costuma ser uma praia muito agradável por altura do verão. Se vier aqui para conhecer aves, a melhor altura é novembro e dezembro, mas se chegar por causa da fama da cozinha, poderá comer o ensopado de enguias ou a caldeirada em qualquer altura do ano. Para os gulosos, há sempre as alcomonias, doce regional feito com pinhões e mel.

    Areias Brancas e Fonte do Cortiço

    À saída de Vila Nova de Santo André, alguns quilómetros depois do Kartódromo, vai encontrar um desvio para a Praia da Fonte do Cortiço que se insere ainda na paisagem protegida da reserva da Lagoa de Santo André. O acesso obriga a conduzir um par de quilómetros em areia, mas o destino compensa o esforço que exigimos do carro. Inseridas dentro do extensíssimo areal que vai desde a península de Tróia até Sines, são uma série de excelentes praias apesar das águas revoltas, protegidas do vento pelo sistema de arribas e dunas que se estendem no seu comprimento.

    Farol de Sines

    Desde os anos 70 que a construção do porto comercial e das gigantescas refinarias da região alteraram substancialmente o perfil desta velha zona piscatória, apesar de ainda restarem recordações desses tempos. Ao chegarmos a Sines pelo norte (A26) encontramos a fiada de rochas que assinala o fim do areal que se estende até Tróia, na saliência do Cabo de Sines. Fica aqui o centenário Farol de Sines, com cerca de 30 metros de altura, que está aberto ao público para visitas às 4ªs feiras. Com a paisagem industrial de um lado e o azul do mar no outro, é uma visão tão bela quanto insólita.

    Sines

    Mesmo depois do seu intenso crescimento industrial, Sines consegue manter algum do seu charme de terra de pescadores e gente com vontade de descobrir. Estevão da Gama foi o alcaide-mor da cidade e deixou ao mundo um filho de nome Vasco que haveria de encetar o Caminho Marítimo para a índia. Poderá ter nascido no segundo andar da torre de menagem do castelo, onde existe hoje um centro de interpretação da sua vida, ou na casa da rua com o seu nome que a tradição aponta como outro dos locais prováveis. De frente para o mar, ao fim da tarde a apreciar o por do sol, percebemos facilmente o chamamento que chega das ondas e a vontade do jovem Vasco da Gama partir à aventura.

    O castelo, na companhia da Igreja Matriz, é de construção muito simples e de pequena dimensão, mas é grande o suficiente para receber os milhares de visitantes que aqui acorrem por altura do Festival Músicas do Mundo, em julho. Para além da torre de menagem, onde se instalou a Casa de Vasco da Gama, o antigo aquartelamento, a casa da guarda e as cavalariças, foram transformados no Museu de Sines.

    São Torpes

    Descendo para a marginal ao lado da Praia Vasco da Gama e prosseguindo para sul, voltamo-nos a cruzar com os terminais de contentores, armazéns industriais e gigantescos reservatórios mas, por algum motivo que só a presença do mar justifica, a natureza não parece aqui minimamente oprimida. Passe aqui à noite, numa daquelas quentes do fim de junho, e aprecie a paisagem industrial iluminada, uma visão muito curiosa e marcante. A seguir ao terminal chegamos a São Torpes, a primeira de uma fiada de praias que, apesar de alguns intervalos rochosos, continua até Porto Covo. Para além de ser uma belíssima praia, tem ainda uma lenda curiosa pois diz-se que foi construido aqui perto o primeiro templo cristão no Ocidente, depois de uma barca abandonada com o corpo de São Torpes encalhar nesta praia.

    De Sines a Porto Covo, praias lendárias e vilas brancas

    Praia de Morgavel

    Depois de percorrer a estrada desde Santo André, calcorrear as ruas de Sines, visitar um museu e ainda dar um mergulho em São Torpes, o apetite aperta e não precisamos de andar muito para chegarmos à próxima paragem. Em frente ao mar, o Arte e Sal tem uma vista espetacular sobre o azul e é um dos melhores restaurantes da zona para se comer peixe grelhado. Os ingredientes frescos chegam da lota de Sines e, para além do pescado, há ainda alguns ex-libris alentejanos como as migas de espigos, xerém de berbigão e açorda de ovas.

    Porto Covo

    A vila cresceu em todas as direções mas, para se conhecer Porto Covo, o ponto de partida obrigatório é o Largo Marquês de Pombal, na companhia da Igreja da Nossa Senhora da Soledade. Construído por altura do final do séc XVIII, o largo recupera o modelo pombalino da baixa de Lisboa com o seu modelo ortogonal clássico. As casas baixas, caiadas a branco e rematadas a azul, continuam pela calçada da Rua Vasco da Gama, onde servem de cenário para as diversas esplanadas aqui presentes, até chegarmos ao mar, na praia dos Buizinhos. E é (quase) só isto! Se há motivo para que Porto Covo continue a ser um destino favorito dos portugueses é exactamente a sua simplicidade. Depois das magníficas praias que aqui sempre existiram e continuarão a atrair visitantes, é mesmo a singeleza do azul sobre branco, de um céu fantástico e das nuvens brancas que se estendem sobre o mar, que tornam a vila apaixonante. Nunca será um destino sofisticado e isso seria o pior que lhe aconteceria: é “só” uma simples vila debruçada sobre o mar. E isso já é tanto!

    Ilha do Pessegueiro

    Se viermos pela estrada que passa ao lado do parque de campismo, a Ilha do Pessegueiro surge-nos depois de ultrapassarmos uma lomba na estrada. À frente da mítica ilha estende-se uma ampla praia e o forte de Nossa Senhora da Queimada, enquanto as ruínas do forte de Santo Alberto são a última recordação de uma construção da dinastia filipina. Praticamente abandonada, a velha fortificação da ilha pode ser alcançada por barco e é comum ver várias embarcações de recreio aqui fundeadas. Já foi porto de embarque romano, local de salga de conservas, ponto de vigia e combate de corsários, mas desde 1942 que não tem qualquer utilidade oficial. Quem cresceu com livros de aventuras como os de Enid Blyton será incapaz de resistir a imaginar como seria esta ilha no passado, todas as histórias de piratas, abordagens e naufrágios que presenciou. E isso também é viajar por Quilómetros que Contam…

    E ainda…

    Se quiser continuar depois o caminho até à Ponta de Sagres, vai descobrir Milfontes, Almograve, Zambujeira e Odeceixe. Mas, se for suficientemente aventureiro para fazer uns valentes quilómetros a pé, os Trilhos dos pescadores continuam até Odeceixe e são uma velha testemunha de tantos anos de relação entre estas povoações e o mar.