Todo o Alentejo em 20 quilómetros?

A estrada mais alentejana de todas leva-nos entre estas duas vilas, pelo meio da planície e da Serra D´Ossa

Redondo e Estremoz são duas vilas fundamentais para se conhecer bom vinho, mas são também dois pontos chave de um eixo que nos mostra o Alentejo “à séria”, aquele que é feito de longas planícies, suavemente moldadas pelas curvas de pequenos montes e filas de chaparros, mas que pode encontrar um maciço como a Serra d´Ossa a travar-nos subitamente o caminho. Vamos agarrar no carro, arrancar a partir do Redondo e fazer a Nacional 381 até Estremoz.

Vai ser a partir da famosíssima Porta da Ravessa que arrancamos para duas das dezenas de quilómetros mais alentejanos de toda a planície. A ilustração desta entrada para o Castelo do Redondo faz já parte da iconografia nacional e é nome respeitado quando se fala de bom vinho, mas não é a única oferta que esta vila deu à cultura portuguesa. Já que aqui estamos, e antes de prosseguir caminho para norte pela Estrada Nacional , vale a pena prestar uma visita aos artesãos locais e conhecer as ternurentas peças de mobiliário aqui produzidas.

    Pé na estrada, rumo a Estremoz

    Um quarto do caminho, logo à saída do Redondo, é sempre a direito, uma longuíssima reta imprópria para ser feita a seguir ao almoço. Mal entramos na N381 percebemos o que é isso das compridas estradas alentejanas, sempre descritas pelos habitantes locais com frases como “é já ali” ou “fica logo depois daquele monte”. A paisagem é monótona, porque se ilustra sempre nos mesmos tons de castanho e verde, mas nunca chata, nunca desinteressante, sempre merecedora do nosso tempo e atenção.

    Fazemos uma breve paragem na Aldeia da Serra, pitoresco sítio onde até há poucas décadas se podiam ver as mulheres sentadas à porta de suas casas a costurarem meias floridas. O hábito perdeu-se mas ainda podemos encontrar algum deste artesanato nas lojas locais.

    Pela frente temos agora o desafio da Ossa, que aperta a condução e lança-nos através de curvas e contra-curvas, a um ritmo que, para a norma alentejana, não nos permite baixar a guarda. Subitamente, a estrada quer “levantar voo” e deixamo-nos ir por esta subida que chega aos 600 metros, altitude estratosférica para a região.

    Castelo Estremoz

    Também aqui temos o topo do mundo

    É a partir do Alto de São Gens que se tem a melhor vista sobre a planície e isso obriga-nos a sair da 381, pouco à frente do Convento de São Paulo. Se encetar este desvio, irá percorrer três quilómetros em terra batida, percurso que no passado, depois do inverno e grandes chuvadas, já tivemos alguma dificuldade em ultrapassar de carro. Tenha alguma cautela e, se necessário, faça a estrada a pé: é a subir, mas cumpre-se com alguma facilidade.

    Da altura da Serra, vai poder ver a sudoeste eucaliptos, azinheiras e sobreiros até perder de vista, enquanto ao lado da estrada, a poucos passos, cresce alecrim, roselha e variadíssimos fetos. Para dizer a verdade, até parece que não estamos no mesmo país.

    Prosseguindo para norte, a Serra insiste em acompanhar-nos por mais alguns quilómetros e descobrimos que este local tem algo de místico. Não são só as antas que aqui ainda se erguem que recordam mitologias milenares. Encontramos a Anta da Candeira, mas também a igreja do Monte da Virgem, suspensa sobre o penhasco, provas de pedra em como o Homem parece relacionar este espaço com o transcendental.

    Regresso à planície

    Já quase no fim da viagem, com a Ossa nas nossas costas, a estrada volta a “domesticar-se”. Ao longe vemos aparecer o Castelo e a Torre das Três Coroas a despontar por entre os telhados do casario. É Estremoz, protegida do vento suão pela serra, erguida sobre a mais alta das colinas que pontuam esta zona. A 420 metros, já bem para além das muralhas que originalmente abrigaram a povoação, encontramosa, por ventura, mais airosa das terras de além Tejo.

    Conta a lenda local que Estremoz foi fundada por habitantes de Castelo Branco que, tendo caído no desagrado real, foram expulsos de sua terra. Percorrendo os territórios a sul, chegaram às vertentes da colina onde hoje se ergue a cidade e encontraram grandes e copados tremoceiros. Os anos passaram, enquanto a população crescia e esperava que a memória dos homens se tornasse mais nebulosa. Finalmente, em 1258 mandaram mensagem ao Rei pedindo o foral e dizendo que, “não tendo encontrado mais do que o Sol, a Lua, as estrelas e os tremoceiros”, queriam estes símbolos no seu escudo.

    Nós, forasteiros, donos de uma ténue costela alentejana, como quase todos os portugueses aliás, não precisaremos de muito mais do que isto: se é verdade que não se vê um Sol, uma Lua e um céu tão estrelado como no meio do Alentejo, vão ser mesmo os tremoços a fechar esta tarde com chave de ouro. Depois do calor dos últimos 26 quilómetros, nada saberá tão bem a acompanhar uma imperial.